"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda." Paulo Freire

sábado, 22 de outubro de 2011

Apresentações dos Seminários - Teorias Curriculares

Em nossas duas últimas aulas de Didática, assistimos às apresentações da turma sobre diversos temas relacionados às teorias curriculares, gostaria então de deixar aqui no blog um pouquinho do que foi apresentado!

Tivemos seminários sobre conceitos como:  a Fenomenologia, uma resposta à concepção teórica do currículo técnico de Tyler, que surgida da década de 70, buscava analisar, e incorporar as discussões de currículo, a experiência dos alunos. O Conceito de Reprodução, muito discutido da década de 60 e 70, na crítica à influência da ideologia da sociedade capitalista no currículo escolar. Ainda no campo dos conceitos, o conceito de Capital Cultura de Pierre Bourdieu, que traz a diferenciação entre dois tipos de saberes em conflito na escola, o da classe burguesa/ classe dominante, a qual tem a posse do capital cultura, em oposição ao saber da classe trabalhadora. 
Além dos conceitos, aprendemos também sobre noções como a do Currículo Oculto, que seria tudo aquilo que temos na escola se tirarmos as disciplinas/matérias propriamente ditas. Explicando melhor: é aquilo que temos na escola mas não é dito, não é oficializado, como a disposição dos alunos e professores na sala, as relações do professor com os alunos, a organização dos horários escolares, etc... Nesta apresentação o que me chamou a atenção foi a ideia de que temos que desvincular o Currículo Oculto da noção de que é algo indesejável, negativo, o reprodutor de uma ideologia opressiva. O que não é necessariamente assim, quando pensarmos que todas as práticas sociais são ideológicas, boas ou ruins!  
Foram apresentados também importantes figuras da teorização educacional, como os brasileiros Paulo Freire e Demerval Saviani, protagonistas do grande embate teórico da década de 1980. Sobre Freire, destaco as noções de que o conhecimento em cada pessoa é construído de acordo com suas vivências e saberes anteriores, e de que não há saber melhor ou pior, eles são apenas diferentes! 

No segundo dia de apresentações, vimos o contexto histórico das Teorias Críticas, com o mundo nas décadas de 1960 e 70 sendo palco de diversas formas de luta e protestos sociais, como a luta contra a ditadura militar no Brasil, a descolonização africana, os protestos contra a guerra do Vietnã, a ideologia da contracultura, e os movimentos pelos Direitos Civis, como o feminismo e o movimento negro norte-americano. 
Gostaria de destacar também a apresentação sobre a Questão Étnica e Racial, que traz a noção de currículo como narrativa étnica e racial, junto a ideia de que estas noções não existem naturalmente, são construções históricas. Para exemplificar, as meninas desse grupo nos trouxeram uma atividade bem interessante: deveríamos preencher uma folhinha que imitava um passaporte, iriamos fazer uma viagem aos Estados Unidos da Cocanha (rsrsrs), nele teríamos que escrever nosso nome, local de nascimento, sexo, nacionalidade e as perguntas que pra mim foram as mais difíceis: raça e etnia. Como nos definimos dentro esses conceitos? Eu não soube responder! Raça, isso existe? Biologicamente não, e etnia, no meu caso uma confusão! Pensei em brasileira, mas é nacionalidade, talvez meio alemã, meio italiana, meio brasileira, mas o qual brasileiro? o do sul, o do nordeste, do sudeste...aaaaaah deixa pra lá! Assim são estes pequenos conceitos que utilizamos na escola que fazem grande diferença, pois estão embricados numa enraizada relação de poder da nossa sociedade.
Pra terminar apresentações sobre a Teoria Pós-Colonialista de Currículo, Feminismo e Teoria Queer, e a Escola-Parque Anísio Teixeira! Ufa foi tanta coisa! Gostaria de poder falar mais de cada um! rsrs Foram apresentações muito interessantes, com atividades criativas para interagir com a turma, uns trouxeram músicas e vídeos, outros nos fizeram questionar uma porção de conceitos, outro grupo nos trouxe uma análise de uma história em quadrinhos de um livro didático da década de 70! Enfim, para mim foi uma experiência enriquecedora, contribuiu muito para aumentar meu capital cultural, como diz Bourdieu! rsrsr
Fora que também é ótimo quando temos que inverter as posições, quando a professora senta para ouvir e nós tomamos a frente da sala! Um ótimo exercício para o que iremos fazer todos os dias daqui alguns anos! 


E por fim, e realmente não menos importante, o que eu aprendi com os seminários, é que a gente nunca deve ligar a caixa de som direto na tomada, e sim no estabilizador do computador! Foi assim que durante a nossa apresentação a caixa de som explodiu e fez a turma rir horrores! É, vivendo e aprendendo! heheheheh

Algumas fotos da nossa apresentação:





Créditos das fotos ao colega Gil Ferri em: BONITAS, As (orgs.). A explosiva apresentação. In: Seminário de Didática B. UFSC: Floripa, 2011/2                                                                                

Onde a crítica começa: ideologia, reprodução, resistência


Esse é o vídeo que produzimos para os seminários de Didática, que fala um pouquinho sobre o filósofo francês Louis Althusser e sua importante contribuição e influência na teorização crítica do currículo. 
Althusser, que propôs a mais influente concepção de ideologia das duas últimas décadas, introduz a crítica marxista em educação. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O currículo na prática

Continuamos com o tema de currículo, mas agora com o currículo do ponto de vista prático! 

Começamos por dividir o currículo em algumas Dimensões:

Currículo prescrito: O currículo oficial, no âmbito Federal, Estadual e Municipal;
Currículo moldado pelos professores: O planejamento;
Currículo em ação: A aula.

Sobre o currículo chamado de prescrito, ou seja, aquele que é designado pelas instituições responsáveis pelas questões educacionais da federação ou mais particularmente de cada estado, destaco os Parâmetros Curriculares Nacionais, os famosos PCN’s. O seu nome já diz, por serem parâmetros, e não leis ou coisa parecida, prezam pela descentralização, pela autonomia. Isto é, não temos um currículo nacional, o que há (os PCN’s) é uma base nacional comum, em si bastante genérica, composta por áreas de conhecimento.
  
Gostaria de comentar hoje um pouquinho sobre a Proposta Curricular de Santa Catarina, para o Ensino Fundamental, edição de 1998. Me chamou a atenção por ser um tanto diferente dos Parâmetros Curriculares Nacionais, por sua visão bastante particular e de tendências marxistas.  

Já no comecinho dos "Eixos norteadores da proposta curricular", se diz que para a Proposta Curricular de SC o ser humano é entendido como social e histórico, isto é, que o homem é resultado de um processo histórico, o qual ele mesmo conduz. Assim os seres humanos fazem a história, ao mesmo tempo que são determinados por ela. Deste modo esta proposta curricular diz que o conhecimento produzido ao longo do tempo é patrimônio coletivo e deve ser socializado com todos, através do zelo pela inclusão e não pela exclusão. 

No entanto o observado é um tanto diferente do proposto, já que, há uma relação do conhecimento considerado mas legítimo em cada tempo com o poder da classe dominante. "Assim, quanto mais esse conhecimento estiver concentrado nas mão de poucos, maior é a possibilidade de esses poucos controlarem pacificamente a maioria; quanto mais, porém, esse conhecimento for socializado, maior a possibilidade de conquista ou do controle de poder pela maioria." (olha o Marx aí!!) 
A socialização no entanto, nem sempre é das riquezas. Na escola há um outo tipo de socialização: a da riqueza intelectual, a qual Bourdieu denomina de "capital cultural", e a apropriação dessa "riqueza" é que abre caminhos para a ação política das camadas dominantes. 
A "solução" seria portanto que as crianças das classes dominadas possam ter  acesso e domínio do conhecimento próprio da camada dominante. Assim como afirmam Bourdieu e Passeron nas teorias críticas de currículo.  
Assim a concepção histórico-cultural do currículo abordada pelas propostas curriculares de SC, compreende que as relações e interações sociais estabelecidas pela crianças e pelos jovens são fatores de apropriação do conhecimento, de modo que tal afirmação traz consigo a consciência de uma responsabilidade ética da escola  com a aprendizagem de todos, um a vez que ela é considerada pela proposta como uma interlocutora privilegiada das interações sociais dos alunos. 

Por hoje é isso...
E sobre o assunto... fala aí Mafalda!


sábado, 1 de outubro de 2011

Currículo: uma questão de saber, poder e identidade

Encontramos o currículo inserido na discussão sobre as funções sociais da escola, já que atua como grande e importante mecanismo de socialização, talvez o maior deles. Currículo é como hoje na didática chamamos todo o processo educativo, em todas as suas dimensões, não apenas aquele que se faz na  escola. 
É importante observarmos também que o currículo é uma invenção social como qualquer outra, como o Estado, a nação, a religião, o futebol... e por isso ele é resultado de um processo histórico.  

Como escreve Tomaz Tadeu, provavelmente o currículo aparece pela primeira vez como objeto de estudo específico nos Estados unidos, em 1920. Com o objetivo de conectar a educação à realidade da época, ao processo de industrialização e à massificação da escolarização. Mas dos anos 20 até os dias de hoje, muita coisa aconteceu para mudar essa visão da teorização do currículo.
As teorias de currículo estão recheadas de afirmações de como as coisas devem ser, e seu estudo nos mostra que "aquilo que o currículo é depende precisamente da forma como ele é definido pelos diferentes autores e teorias", em diferentes épocas ou períodos históricos. As teorias buscam justificar, cada uma a seu modo, qual conhecimento deve ser ensinado, e por isto dizemos que o currículo é sempre o resultado de uma seleção: de um universo mais amplo de conhecimentos e saberes seleciona-se aquela que pensamos ser apta a constituir o currículo.

Durante o meu processo de escolarização, hoje percebo muito fortemente essa característica seletiva do currículo. Por ter feito a maior parte dela em uma escola particular vinculada à uma ordem religiosa, os saberes escolares eram muito bem selecionados, de forma a cooperarem para uma educação calcada nos princípios característicos de uma escola confessional católica. 
No entanto, isto não quer dizer que minha escolarização tenha sido tão tradicional ao ponto de, assim como as teorias tradicionais, se concentrar em questões técnicas do ensino, as quais aceitando os conhecimentos e saberes dominantes apenas se preocupam com questões de organização prática do ensino. Muito pelo contrário, hoje vejo que a escola cumpriu sua proposta de "desenvolvimento integral do educando(a), trabalhando a autonomia, respeitando as diferenças individuais, a fim de prepará-lo(a) para a vida, buscando estimular, nos diferentes momentos: comunicação (livre expressão), afetividade, cooperação e registro (documentação), propostas que estão presentes na escola moderna segundo Celestin Freinet." Gente! Procurando a proposta pedagógica da minha escola acabei descobrindo tanta coisa que eu não fazia ideia, até Freinet! rsrs 

Brincadeiras à parte, percebo que mesmo tendo sido feita em uma escola particular e católica, que muitos pensariam ser conservadora, elitista, reprodutora da cultura dominante e tal e tal, ela me ensinou valores de respeito, afeto, cooperação, disciplina em seu sentido estritamente positivo, que hoje são aspectos fundamentais da minha construção pessoal, e que de longe vejo que faltam na educação como um todo atualmente. Penso que a sociedade está muito carente de valores, de princípios, de ética, e um pouquinho delas não faz mal a ninguém. 
Isto não quer dizer também que muitas e importantes questões críticas e pós-críticas não tenham sido abordadas em minha educação, como a reprodução cultural e social, questões de ideologia dominante e as conexões entre saber, identidade e poder, multiculturalismo, gênero, raça, etnia, mas por outro lado, a possibilidade de autonomia na perspectiva que vê "o educando como sujeito que constrói seu próprio conhecimento na interação com o meio histórico, físico e social", me deixaram bastante livre para construir minhas próprias concepções e ideias.  


Pra terminar não podia faltar uma tirinha da Mafalda né!




Baseado em: SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: Uma introdução às teorias de currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.