Encontramos o currículo inserido na discussão sobre as funções sociais da escola, já que atua como grande e importante mecanismo de socialização, talvez o maior deles. Currículo é como hoje na didática chamamos todo o processo educativo, em todas as suas dimensões, não apenas aquele que se faz na escola.
É importante observarmos também que o currículo é uma invenção social como qualquer outra, como o Estado, a nação, a religião, o futebol... e por isso ele é resultado de um processo histórico.
Como escreve Tomaz Tadeu, provavelmente o currículo aparece pela primeira vez como objeto de estudo específico nos Estados unidos, em 1920. Com o objetivo de conectar a educação à realidade da época, ao processo de industrialização e à massificação da escolarização. Mas dos anos 20 até os dias de hoje, muita coisa aconteceu para mudar essa visão da teorização do currículo.
As teorias de currículo estão recheadas de afirmações de como as coisas devem ser, e seu estudo nos mostra que "aquilo que o currículo é depende precisamente da forma como ele é definido pelos diferentes autores e teorias", em diferentes épocas ou períodos históricos. As teorias buscam justificar, cada uma a seu modo, qual conhecimento deve ser ensinado, e por isto dizemos que o currículo é sempre o resultado de uma seleção: de um universo mais amplo de conhecimentos e saberes seleciona-se aquela que pensamos ser apta a constituir o currículo.
Durante o meu processo de escolarização, hoje percebo muito fortemente essa característica seletiva do currículo. Por ter feito a maior parte dela em uma escola particular vinculada à uma ordem religiosa, os saberes escolares eram muito bem selecionados, de forma a cooperarem para uma educação calcada nos princípios característicos de uma escola confessional católica.
No entanto, isto não quer dizer que minha escolarização tenha sido tão tradicional ao ponto de, assim como as teorias tradicionais, se concentrar em questões técnicas do ensino, as quais aceitando os conhecimentos e saberes dominantes apenas se preocupam com questões de organização prática do ensino. Muito pelo contrário, hoje vejo que a escola cumpriu sua proposta de "desenvolvimento integral do educando(a), trabalhando a autonomia, respeitando as diferenças individuais, a fim de prepará-lo(a) para a vida, buscando estimular, nos diferentes momentos: comunicação (livre expressão), afetividade, cooperação e registro (documentação), propostas que estão presentes na escola moderna segundo Celestin Freinet." Gente! Procurando a proposta pedagógica da minha escola acabei descobrindo tanta coisa que eu não fazia ideia, até Freinet! rsrs
Brincadeiras à parte, percebo que mesmo tendo sido feita em uma escola particular e católica, que muitos pensariam ser conservadora, elitista, reprodutora da cultura dominante e tal e tal, ela me ensinou valores de respeito, afeto, cooperação, disciplina em seu sentido estritamente positivo, que hoje são aspectos fundamentais da minha construção pessoal, e que de longe vejo que faltam na educação como um todo atualmente. Penso que a sociedade está muito carente de valores, de princípios, de ética, e um pouquinho delas não faz mal a ninguém.
Isto não quer dizer também que muitas e importantes questões críticas e pós-críticas não tenham sido abordadas em minha educação, como a reprodução cultural e social, questões de ideologia dominante e as conexões entre saber, identidade e poder, multiculturalismo, gênero, raça, etnia, mas por outro lado, a possibilidade de autonomia na perspectiva que vê "o educando como sujeito que constrói seu próprio conhecimento na interação com o meio histórico, físico e social", me deixaram bastante livre para construir minhas próprias concepções e ideias.
Pra terminar não podia faltar uma tirinha da Mafalda né!

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